Depressão Crónica: atualmente, uma doença tratável

Nos 35 anos decorridos desde que os medicamentos antidepressivos passaram a estar disponíveis, a depressão major aguda tem sido extensamente estudada e o seu impacto caracterizado. Embora a depressão tenha sido tradicionalmente considerada uma situação episódica, aguda, as evidências reunidas durante as últimas duas décadas tem demonstrado, de forma crescente que, mais frequentemente, a depressão é uma doença crónica, recorrente, que pode durar toda a vida. Um estudo prospectivo com 10 anos de duração efectuado em doentes tratados para a depressão aguda verificou que:

  • 12% ainda se encontravam sintomáticos ao fim de 5 anos;
  • 7% não tinham apresentado remissão dos seus sintomas durante a duração total do estudo;
  • 28% dos tratados com sucesso para um episódio agudo apresentavam uma recidiva dentro de um ano, enquanto que 62% apresentavam uma recidiva dentro de 5 anos e 75% apresentavam uma recidiva dentro do período de 10 anos do estudo;
  • Apenas 18% permaneciam bem durante 10 anos após um episódio inicial de depressão major.

Os estudos epidemiológicos realizados durante os anos 80 verificaram uma prevalência de 3 a 6% para a depressão crónica. Embora a depressão crónica seja, por vezes, referida como depressão “minor”, para a diferenciar da forma aguda, mais florida, os seus efeitos dificilmente podem ser considerados como minor. Muitos doentes a quem actualmente é efectuado este diagnóstico têm apresentado uma incapacidade significativa na totalidade da sua vida adulta, frequentemente de forma mais acentuada do que é habitualmente observado noutras situações crónicas, tais como a diabetes, a hipertensão e a artrite. O grau de incapacidade experimentado por estes doentes é reflectido nos achados de um estudo que revelou que mais de 20% dos indivíduos com depressão crónica estavam desempregados e que 31% tinham empregos que eram significativamente inferiores às suas habilitações.3 A co-morbilidade também é proeminente; muitos doentes apresentam fobias sociais, perturbação de pânico ou toxicodependência. São tipicamente encontradas histórias familiares pesadas de perturbações afectivas.

Anteriormente considerada como reflexo dum “temperamento infeliz”, sabe-se agora que a depressão crónica é uma perturbação do humor passível de tratamento farmacológico. As implicações terapêuticas são profundas — particularmente devido ao facto de muitos destes doentes já estarem deprimidos há décadas,
se não durante toda a sua vida adulta.

Nas primeiras edições do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), a depressão crónica era classificada como uma perturbação da personalidade distinta da depressão major. Isto, evidentemente, tinha implicações importantes no tratamento desta situação: só o tratamento psiquiátrico a longo prazo era considerado adequado, com o objectivo de alterar as características anormais da personalidade. Os medicamentos antidepressivos não eram considerados úteis e só raramente eramnecessários.

Quando da publicação do DSM-III-R em 1987, os investigadores encontraram vários tipos de evidências fisiológicas associando a depressão crónica, de forma mais íntima, à forma aguda desta doença. Esta alteração da forma de pensar persistiu e, no DSMIV, a depressão cada como uma perturbação do humor com 3 subtipos principais:

  • A distimia, uma situação na qual os sintomas de depressão, menos severos do que os observados na depressão major aguda, persistem durante mais de 2 anos;
  • A depressão major crónica, na qual os sintomas graves que caracterizam a depressão major aguda persistem durante mais de 2 anos;
  • A depressão dupla, quando um episódio de depressão major aguda se sobrepõe a uma situação distímica subjacente.

A depressão major crónica também inclui 2 subtipos adicionais. A depressão major residual refere-se a um episódio de depressão major, sem uma distimia pré-existente, que só melhora parcialmente, com sintomas residuais persistentes que se prolongam por mais de 2 anos. A depressão major recorrente residual refere-se a episódios recorrentes de depressão major, sem uma distimia pré-existente, que não remitem completamente entre os episódios. Estes subtipos de depressão crónica são geralmente observados numa fase intermédia ou tardia da vida. As depressões major, com um início após os 50 anos, tornam-se frequentemente crónicas e são geralmente os sintomas prodrómicos mais precoces duma doença neurológica subjacente, tal como uma demência ou uma doença de Parkinson.

Embora estas várias situações sejam classificadas como subtipos separados da depressão crónica, do ponto de vista clínico as suas diferenças têm menos importância do que a característica de cronicidade por elas partilhada. Podem ser vistas como pertencendo a um contínuo na qual a gravidade dos sintomas pode variar, mas o seu agravamento é frequente. Nos estudos de campo do DSM-N, por exemplo, um episódio de depressão major aguda acabou por desenvolver-se em 79% dos doentes com distimia, qualificando-os para o diagnóstico de depressão dupla.

- Tratamento da Depressão